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João Vicente Goulart: “Prego o estado musculoso, não o gordo, inchado”

de Regina Bochicchio

Filho do ex-presidente da República João Goulart, o Jango, que caiu com o golpe militar de 1964, João Vicente Goulart disputará o Palácio do Planalto. Fundador do PDT, deixou a sigla em 2017 para filiar-se ao Partido da Pátria Livre (PPL), no qual, segundo ele, existe espaço para o nacional desenvolvimentismo – projeto de governo com foco no desenvolvimento econômico que marcou a história do Brasil entre 1946 até o golpe.

Por que o senhor saiu do PDT ano passado e foi para o PPL?

Eu sai do PDT porque o PDT não reconheceu… O PDT foi criado pelo trabalhismo. O PDT foi criado em cima de Getúlio [Vargas], de Jango [João Goulart], [Leonel] Brizola. Mas hoje o partido não responde mais às orientações do trabalhismo. Esta é a primeira questão. E eu me sinto, hoje, muito orgulhoso de ser candidato do PPL. Eu, em nenhum momento, solicitei e nem entrei no PPL para ser candidato à presidência. Escolhi o PPL pelo programa, pelo estatuto, pela vontade de resgatar o trabalhismo e pela proposta de retomar o nacional desenvolvimentismo, que fez do Brasil, desde Getúlio até 1964, experimentar o grande desenvolvimento nesse País. Nós éramos uma grande fazenda antes disso.

Na avaliação do senhor, o pedetista Ciro Gomes é um bom candidato?

Acho que ele é um homem inteligente, mas para falar em trabalhismo ainda falta muito para ele. Acho que o Ciro passou por tantos partidos, não é? PSDB, PP… Acho que ele ainda tem que estudar… Ele é um homem muito estudioso, mas acho que ainda tem que estudar.

O senhor é filho do presidente que sofreu o golpe. Como vê a demanda de parte da sociedade pela volta do regime militar?

Eu acho, sinceramente, que essas pessoas, jovens, falam na volta da ditadura sem conhecê-la. Acho que fala a favor da ditadura quem não conheceu a ditadura, não teve uma mãe presa, torturada, morta nos porões da ditadura. Não conheceu a censura nas redações, a falta de habeas corpus, a falta de liberdade. Então, eu acho, sinceramente, que essa posição deste grupo de jovens que pregam isso tem um pouco de desconhecimento. Da outra parte, eu também acho que o militarismo é uma coisa extinta como forma de governo. Isso foi no golpe de 64. Era um grande planejamento do estado de governo americano. Então, acho que existe uma candidatura aí colocada no Brasil…

[cortando] … Do Jair Bolsonaro (PSL). Como o senhor vê o ‘fenômeno’ Bolsonaro?

Não acho fenômeno. Acho um direito do capitão Bolsonaro se candidatar. Acho que voo de galinha a gente não mede pelo voo do Condor… [risos]. Primeira coisa, ele tem todo o direito de ser candidato, nós lutamos no exílio pela democracia, pelo retorno da democracia. E a democracia é um sistema de governo que permite nós convivermos com o pensamento adverso. Meu pai, o Jango, recebeu [Carlos] Lacerda no exílio, em nome do Brasil. A democracia representa isso. Não que eu concorde com o projeto fascista, homofóbico, de dar uma arma a cada família – eu acho isso uma irresponsabilidade total! Eu acho que ele pontua bem nas pesquisas porque existe uma grande frustração com a nossa democracia representativa. Isto que aconteceu aí… é uma frustração. Eu tenho visto eleitores que votaram no Lula e que hoje votam no Bolsonaro: ‘Não deu certo, então vou pra lá’. E outra coisa, eu não acredito que a candidatura do capitão Bolsonaro represente o pensamento militar brasileiro. Além disso, nunca vi general bater continência para capitão.

Como o senhor vê a estratégia do PT de manter o discurso de ‘Lula presidente’ – mesmo sabendo que provavelmente a candidatura será indeferida?

Olha, eu não sou PT, acho que eles têm todo o direito de fazer a estratégia que eles entenderem melhor. O que eu não concordo… inclusive ontem [11/07] eu fiz uma palestra na Universidade Federal da Bahia citando essa tese de que eleição sem Lula é fraude. Isso, no meu entendimento, não existe: como eleição sem Lula é fraude? Porque se é fraude, então vamos voltar à luta armada. Nem eles mesmos [o PT] acreditam nisso… Se é fraude, desiste, ora. É direito do PT tentar todos os recursos possíveis. E é de parte da Justiça também o direito de contestar. Lamentavelmente, o que aconteceu no domingo passado é uma exposição visceral do que está acontecendo na Justiça [episódio do habeas corpus a Lula, que ao final não foi consumado]. Nós temos duas justiças: uma que funciona, dos juízes concursados, e outra politizada, daqueles que são nomeados.

Fundo eleitoral minguado, sem tempo de TV, sem coligação. Qual é a estratégia para tocar a sua campanha à presidência?

Realmente, a proposta do Pátria Livre é uma proposta de colocar em pauta o nacional desenvolvimentismo. E nós sabemos de todas as dificuldades do que será essa desigualdade democrática. Porque democracia se supõe igualdade de condições. E isso não vamos ter. É, os grandes partidos criaram o Fundo Eleitoral de R$ 1,7 bilhão. Os quatro maiores partidos se autofinanciam e neles estão mais de 300 parlamentares processados ou indiciados na Lava Jato e outros processo que por aí estão. É uma luta de Davi contra Golias. Mas, às vezes o Golias cai. Nós temos candidatura à presidência da República. O nosso vice é o Doutor Leo, também do PPL. Vamos com chapa pura. Não temos como coligar com outros partidos, a não ser nos estados. Sempre digo o seguinte: olha, o patrimônio nosso não são as malinhas de R$ 500 mil correndo pela rua.

Na Bahia, como fica?

Aqui não tem candidatura ao governo, mas a nossa executiva ainda não formalizou qual a coligação que vai conduzir. Nós temos um grande desafio, que é fazer 1,5% em nível nacional e 1% em nove estados diferentes da federação. Esse é o grande desafio do partido para se manter. Aqui tem candidatos a deputado federal e estadual. Estamos conversando. Claro que não vamos fazer coligações com candidaturas adversas à nossa visão programática.

O DEM seria adverso?

Seria adverso, sem dúvida. Em Goiás temos essa mesma preocupação, porque tem parte do partido que quer apoiar o [Ronaldo] Caiado [do DEM]. Agora, o que nós precisamos realmente é fazer os deputados federais, que é aquilo que vai nos dar a alavanca para projetar o partido para novos desafios lá na frente.

Acha que consegue cumprir a cláusula de barreira?

Vamos conseguir, sim, para surpresa de muitos que não acreditam.

O senhor disse que o nacional desenvolvimentismo é a pauta. Como adaptar esse projeto ao século 21?

O nacional desenvolvimentismo era um projeto que visava à proteção do nosso patrimônio público, das nossas empresas estatais, de nosso subsolo, da valorização de nossa cultura. Em 64 se dá o golpe, não contra o presidente João Goulart. O golpe de 64 se dá contra o projeto de nação brasileira. Então, é um compromisso nosso esse resgate. E eu jamais pensei que iria ver de novo o Brasil com tanto entreguismo em tão pouco tempo. É por isso que a nossa luta se destaca. Talvez seja o único partido hoje, o PPL, que se propõe a desafiar o sistema financeiro. Os atores são os mesmos. Os atores que estão subtraindo do País as suas forças são muito parecidos com os de 64.

O senhor se refere ao impeachment de Dilma, a política econômica do governo Temer?

Não estou falando só do impeachment, mas do tempo atual, porque o impeachment da Dilma nos legou o mesmo Congresso. Em 64 tínhamos o Congresso Nacional eleito em 62 com dinheiro da CIA. O próprio Lincoln Gordon [Abraham Lincoln Gordon, embaixador dos EUA no Brasil entre 1961 e 1966] esteve aqui em 2002 e disse claramente que comprou, financiou parlamentares brasileiros nas eleições para derrubar o presidente João Goulart. O Congresso que deu coloração de legalidade ao golpe. Por outro lado, temos a Fiesp de 64: quando Jango faz o famoso comício, dia 13 de março, na Candelária, no Rio de Janeiro, para 300 mil pessoas, a Fiesp organiza a Marcha pela Família, por Deus e pela Liberdade, em São Paulo. A Fiesp fazia essas marchas com um religioso americano, o padre [Patrick] Peyton. Mais recentemente, a Fiesp também financiou os movimentos de rua, só que trocou o padre Peyton pelo pato amarelo. Eu estou surpreso com a velocidade do entreguismo do governo Michel Temer. Nós estamos entregando todos os setores da nossa economia, dizendo esse discurso neoliberal de que o estado tem que ser mínimo.

Qual é o estado suficiente? O estado que não tem cabide de emprego ou o estado que investe?

Você acha que o cabide de emprego é maior do que os R$ 400 bilhões que nós pagamos ao sistema financeiro? Você acha que os R$ 175 bilhões que pagamos de royalties de remessa para o exterior é maior do que o cabide de emprego? Você acha, por exemplo, que se supõe que R$ 500 bilhões são subsídios dados a empresas multinacionais que não retornam ao Tesouro… isso tudo dá mais de R$ 1 trilhão! Eu sou a favor do estado que tenha condições de fazer os investimentos públicos suficientes para o desenvolvimento social. Tem uma grande diferença quando você prega um estado forte, eu prego o estado musculoso, não o estado gordo, inchado. Mas o estado tem que ter condições de investimento.

O que o senhor faria a respeito das reformas da Previdência e Trabalhista?

Eu não faria a Reforma da Previdência. Eu faria, primeiro, a cobrança de quem deve à Previdência. Dos cinco mil e tantos municípios brasileiros, 50% vivem dos parcos recursos dos salários mínimos dos aposentados rurais. Nós não podemos reformar, retirar direitos. Aliás, nossa origem é trabalhista: quem fez o voto feminino, quem fez a lei de oito horas, quem fez as férias remuneradas? Tem muita gente que diz que a CLT tem 70 anos, falando como se fosse velha. Eu digo, então ela é vetusta? Está sendo usada por velhos, então temos que reformá-la? Então, reforma a Lei Áurea que é mais velha, é isso? Eu revogaria as novas leis trabalhistas.

O que o senhor proporia para a economia da região Nordeste sob a ótica nacional desenvolvimentista?

Nós temos que rever o pacto federativo. Dentro desse pacto federativo, e pela própria proposta econômica, temos que acabar de autorizar que os órgãos de financiamento da região – Sudene, Banco do Nordeste, os meios que nós temos de financiamento de projetos no Nordeste – estejam à disposição de megaempreendimentos que não se realizam. Está aí o exemplo da Sudene que, inclusive, foi idealizada por Celso Furtado, ministro do Planejamento do João Goulart, e que não está cumprindo o desafio que é financiar a economia dos estados do Nordeste. Mas a nossa proposta é não financiar megaprojetos e, sim, cooperativas, pequenos empresários, pequenos agricultores, assentamentos…

Qual a lembrança mais forte do senhor na época do exílio com seu pai?

As saudades… Saudades que a gente via impressa na nossa família, saudades de voltar ao Brasil, lamentavelmente não foi possível, não é? o destino quis que João Goulart fosse o único presidente de nossa pátria, morando no exílio, lutando pela liberdade, democracia, pela igualdade de diretos sociais no nosso País… que não retornasse [Jango foi encontrado morto, na Argentina, no ano de 1976. Oficialmente, a causa da morte do ex-presidente foi ataque cardíaco. Mas há investigações sobre o caso].

Fonte:http://atarde.uol.com.br